INTEGRANTES

O Coletivo Terra em Cena é uma articulação de coletivos de teatro e audiovisual que atuam em comunidades da reforma agrária e quilombolas e em meio urbano. É composto por professores universitários da UnB e da UFPI, e da rede pública do DF, por estudantes das Licenciaturas em Educação do Campo da UnB e da UFPI/Campus de Bom Jesus e por militantes de movimentos sociais do campo e da cidade. O Terra em Cena se configura como programa de extensão da UnB, com projetos de extensão articulados na UnB e na UFPI, e como grupo de pesquisa cadastrado no diretório de grupos do Cnpq. Um dos projetos é a Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do DF (ETPVP-DF) que integra a Rede de Escolas de Teatro e Vídeo Político e Popular Nuestra America.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

IV Mostra Terra em Cena e na Tela demonstra a força do teatro e do cinema em tempos de barbárie



Entre os dias 9 e 11 de maio de 2019 aconteceu na cidade de Bom Jesus, no extremo sul do Piauí, a IV Mostra Terra em Cena e na Tela, articulada por meio da parceria entre grupos de pesquisa e extensão da Universidade de Brasília (UnB) – Terra em Cena - e da Universidade Federal do Piauí (UFPI) – Cenas Camponesas e Nagu (Núcleo de Agroecologia do Vale do Gurguéia).
            A atividade reuniu cerca de quatrocentas pessoas no decorrer dos três dias, em diversas atividades: mesas temáticas, oficinas de teatro e cinema, apresentação de peças e filmes, debate com os realizadores, noites culturais, além de diversos momentos de integração e intercâmbio que emergiram espontaneamente no encontro.
            As três primeiras Mostras ocorreram na Universidade de Brasília (campus Planaltina), nos anos 2013, 2017 e 2018, como momento culminante das atividades do programa de extensão e grupo de pesquisa Terra em Cena. A partir da III Mostra recebemos como convidado o Cenas Camponesas, um grupo de teatro criado pela professora Kelci Anne Pereira, com estudantes do curso de Licenciatura em Educação do Campo (Ledoc) da UFPI, da área de habilitação em Ciências Humanas e Sociais. Na avaliação da III Mostra decidimos fortalecer e expandir a relação entre universidade, movimentos sociais e grupos de teatro e audiovisual formados pelos ou com os estudantes das Licenciaturas em Educação do Campo da UnB e da UFPI. Um dos encaminhamentos foi descentralizar a Mostra, realizando a quarta edição no Nordeste brasileiro, em Bom Jesus.
            A coordenação do encontro na UFPI foi composta pelo grupo de teatro Cenas Camponesas, pelo grupo de pesquisa Nagu, por professores/as da Ledoc-UFPI, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), sendo a primeira vez que os últimos dois grupos se somam na construção e participação da Mostra. A presença dos estudantes da UFPI foi bastante diversificada, com muitos estudantes de outros cursos participando de vários espaços do evento.
A delegação que saiu de Brasília foi composta por professores da Ledoc da UnB, por professores da Secretaria de Educação do Governo do Distrito Federal, cursistas do programa Escola da Terra, ofertado pela UnB em parceria com a SEDF e com o MEC, e por integrantes de três dos elencos do programa Terra em Cena: o Vozes do Sertão Lutando Por Transformação (VSLT), que apresentou a peça “Se há tanta riqueza por que somos pobres?”, o “Arte Kalunga Matec”, da comunidade Engenho II do quilombo Kalunga em Cavalcante, e o elenco da Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do Distrito Federal. Além disso, estiveram presentes os cineastas Adirley Queirós e Joana Pimenta, do Ceicine, e a documentarista e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da UnB, Dácia Ibiapina. Ambos apresentaram filmes premiados em diversos festivais: “A cidade é uma só?”, de Adirley Queirós, e “Carneiro de Ouro”, de Dácia Ibiapina. A produção de Dácia aborda o trabalho dos cineastas da cidade de Picos (PI), em particular a obra de Dedé Rodrigues, o qual também esteve presente no evento, exibindo o filme “O sanfoneiro tocou no inferno”.
            A produção teatral apresentada deu mostra da vitalidade e da necessidade do teatro político nos tempos atuais. O Coletivo Cenas Camponesas estreiou a segunda peça de seu repertório, abordando o confronto entre os modos de produção camponês e do agronegócio no campo brasileiro, a partir de livre adaptação da peça “Posseiros e Fazendeiros”, construída em 2004 pelo grupo do MST Filhos da Mãe..Terra (SP), como exercício de adaptação de Horácios e Curiácios, de Bertolt Brecht. Em cena foi apresentado um projeto de pesquisa de grande complexidade: evidenciar as relações entre o ciclo de ditaduras latino-americanas da década de 1960 do século passado com o modelo do agronegócio, iniciado décadas antes por meio da Revolução Verde. O público se deparou com dados, imagens, cenas alegóricas, momentos de mística, num ato estético e pedagógico que demonstra a consciência do direito à cultura e a arte, por parte dos povos e educadores/as do campo.
            Com a mesma peça em cartaz há dois anos, o VSLT apresentou uma versão da narrativa construída coletivamente, na qual se observa o aprofundamento da pesquisa corporal e musical desenvolvida pelo grupo, cada vez mais consciente das raízes históricas e estéticas afrodescendentes que representam. Recorrendo à estrutura rítmica ditada pelo atabaque, os corpos encenam poemas de Drummond mesclados a formas clássicas do teatro político, gerando uma atmosfera poética e política que envolveu o público, sobretudo, quando os recursos do teatro tribunal foram acessados. A peça chega no ponto alto no momento em que o elenco desce do palco e os atores se misturam com a plateia, transformando a cena em grande assembleia em que debatem os rumos da mineração na região da Chapada dos Veadeiros.
            A terceira peça, da brigada de agitprop Marisa Letícia, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) do Piauí, abordou a Reforma da Previdência, a partir da estrutura formal do teatro de agitprop, com bases coreográficas e coros bem demarcados, conforme permitem as condições objetivas do teatro feito na rua e para o povo. A fatura do conjunto das três obras é de que existe um campo bastante fértil para a expansão do teatro político, sobretudo, quando os grupos encaram suas funções como multiplicadores, formando mais grupos pelas comunidades, escolas e organizações por onde passam, ampliando dessa forma a capacidade de auto-representação da classe trabalhadora.
            Nesse sentido, as oficinas de teatro e cinema se apresentaram como momentos relevantes de formação, colaborando para que os coletivos e movimentos envolvidos na Mostra se apropriassem um pouco mais dos meios de produção artísticos, como armas indispensáveis na luta cultural contra a barbárie, que marca a condução política do país. Teatro do Oprimido, com ênfase na coringagem, Teatro Épico, com foco no coro, teatro de agitação e propaganda, uso do celular para a elaboração de documentários e a produção cinematográfica contra hegemônicas foram temas abordados nas oficinas, se forjaram também como espaços de debate sobre as peças e filmes assistidos anteriormente.
            O seminário “arte, educação e direitos humanos”, que abriu a Mostra animado pelas exposições e análises da professora Pâmela Peregrino (UFSB) e do professor Rafael Villas Bôas (UnB), colocou questões centrais para o evento e seus desdobramentos futuros.
Uma delas é que o esforço artístico dos coletivos da rede Terra em Cena deve voltar-se não só para a elucidação, no conteúdo, do desmonte democrático sob a égide fascista, que marca a conjuntura nacional com efeitos regressivos de largo alcance na estrutura de direitos do povo. É necessário que a lucidez na análise política se reverta em força poética, que a estrutura formal das produções potencialize o estudo e a historicidade dos temas abordados.  Temos a tarefa de imaginar e realizar coletivamente obras que, por um lado, desconstruam – em seu processo, conteúdo e resultado estético – os padrões burgueses, e que, por outro lado, mobilizem o público a percorrer rotas sensíveis mais humanistas na percepção da narrativa do real e da condição humana em nosso tempo.  E todo esse potencial formativo se completa com a circulação das obras: elas precisam ser cada vez mais apresentadas e debatidas abertamente em espaços populares, nas escolas, juntos aos sindicatos e movimentos como o testemunho do trabalho desalienado na arte e da ação agregadora que ela pode gerar. Essa intencionalidade e alcance social, ao serem buscados pelos coletivos da Rede, é que formam o link entre os trabalhadores em cena e os trabalhadores na plateia, e podem fermentar a resistência à barbárie, mobilizar o pertencimento a  uma classe que se autodetermina e representa, no palco, nas ruas, na vida, na política.


Kelci Anne Pereira, Rafael Villas Bôas, Caroline Gomide e Eliene Novaes.
Professora da Ledoc da UFPI/Bom Jesus e professores da Ledoc da UnB.
Integrantes do Programa de Extensão e grupo de pesquisa Terra em Cena.


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