Composição do Terra em Cena

O Coletivo Terra em Cena é uma articulação de coletivos de teatro, audiovisual e artes visuais que atuam em comunidades da reforma agrária, quilombolas e em meio urbano. É composto por professores universitários da UnB, da UFSJ, da UFSC e da UFVMJ, da rede pública do DF, por estudantes da Licenciatura em Educação do Campo da UnB e por militantes de movimentos sociais do campo e da cidade. O Terra em Cena se configura como Programa de Extensão da UnB, com Projetos de Extensão articulados na Faculdade UnB de Planaltina (FUP) e como grupo de pesquisa cadastrado no diretório de grupos do Cnpq. Um dos projetos é a Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do DF (ETPVP-DF) que integra a Rede de Escolas de Teatro e Vídeo Político e Popular Nuestra America.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Programas de extensão do campus de Planaltina da UnB realizam seminário em Cavalcante promovendo apresentações e oficinas teatrais, debates e visita técnica em áreas de mineração e comunidades quilombolas Kalunga[1]

                                                                                   

                                                                                
Dando sequência ao ciclo de seminários de Tempo Comunidade da Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC) promovidos na região de Cavalcante há mais de uma década, desde a criação do curso na UnB, em 2007, ocorreu entre 21 a 24 de fevereiro de 2019 mais uma atividade da Educação do Campo do campus de Planaltina da UnB, em parceria com as associações quilombolas do território Kalunga – Epotecampo, Associação Quilombo Kalunga (AQK) e Associação Kalunga de Cavalcante. Pela segunda vez o seminário é o resultado de dois cursos em alternância, a Ledoc e a Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do Distrito Federal (ETPVP-DF). 
A Escola de Teatro Político e Vídeo do Distrito Federal decidiu mudar a metodologia de funcionamento no ano de 2019. Para permitir que mais pessoas de diferentes localidades tenham a oportunidade de participar de nossos processos formativos organizamos a proposta metodológica da segunda turma de modo que o processo de oferta de atividades não demande presença constante nem pré-requisitos da pessoa ter participado de módulos anteriores para se inserir nos processos formativos da escola. Com isso conseguimos estender para Cavalcante, onde há dois grupos de teatro quilombolas Kalunga articulados ao programa de extensão e grupo de pesquisa Terra em Cena[2], um dos módulos de formação da segunda turma da escola. Se forma na segunda turma quem completar duzentas horas de atividades cursadas, distribuídas em módulos, seminários, ensaios, produção de vídeos, etc.
Na mesa de análise de conjuntura, o diretor do campus de Planaltina da UnB, professor Dr. Marcelo Bizerril refletiu sobre as potencialidades da alternância para democratização do acesso ao ensino superior:  "As universidades têm tentado atuar no desenvolvimento local de diversas regiões do país, mas penso que são os novos campi que mais têm contribuído em ampliar as ramificações e inserções das universidades nas comunidades. No nosso caso, a alternância cria a condição da presença dos sujeitos das comunidades dentro da universidade, e amplia o impacto da ação da universidade nos territórios, no desenvolvimento local e humano."
Também presente na mesa a professora Dra. Eloísa Pilati, representando o Decanato de Ensino e Graduação (DEG) da UnB, como Coordenadora de Integração das Licenciaturas, fez um retrospecto positivo das políticas públicas desenvolvidas no ensino superior nos últimos quatorze anos: “Quero pontuar os avanços que tivemos nos últimos anos. Estou na UnB desde 1994. No curso de Letras, tínhamos só o curso de letras diurno. Depois ocorreu a ampliação para o noturno. A universidade passou por grande ampliação e democratização do acesso. Nos últimos quatorze anos tivemos as cotas, a criação dos Pólos da Universidade Aberta do Brasil (UAB), os programas de iniciação à docência, o PIBID e Residência Pedagógica. Passamos por momentos de transformação nas licenciaturas por meio de políticas públicas de renovação e de indução de transformações relevantes. Por exemplo, a questão do estágio foi melhor estruturada dentro da carga horária de formação e passou para 400h. A questão dos programas de iniciação à docência também é muito importante: o professor da UnB, o professor supervisor na escola, e os estudantes da universidade recebem bolsa, pesquisam e atuam em conjunto. Todas essas foram políticas importantes a ampliação do acesso à universidade, para a atualização dos projetos político-pedagógicos das licenciaturas e para a promoção de maior diálogo entre a universidade e a escola”.
Representando o Decanato de Extensão da UnB o Diretor Técnico de Extensão, professor Dr. Alexandre Pilati avaliou que “a Extensão vive hoje um momento importante de ajudar a universidade brasileira a repensar seu papel histórico e a assumir a responsabilidade verdadeira na construção e execução de um projeto nacional soberano e popular. Eu acredito que a escola pública brasileira, por mais contraditório que seja o cenário, ainda é o terreno em que conseguimos ter a vivência de uma idéia de democracia. Não é a toa que o projeto de militarização está acontecendo com as escolas públicas, isso é o impulso de controle da potência democrática das escolas. A crise da educação do Brasil não é crise, é um projeto”.
            A mesa de análise de conjuntura contou também com a presença de lideranças comunitárias de associações quilombolas, muitas delas professoras e professores formados na Licenciatura em Educação do Campo da UnB, como Maria Lucia Godinho, presidente atual da Epotecampo, que relatou a ampliação da organização social no quilombo a partir das parcerias com as universidades e informou a intenção de construção de uma Escola Popular Kalunga, que possa sistematizar as demandas e articular as parcerias com as diversas universidades e institutos para que as equipes de pesquisa e extensão possam desenvolver projetos com as comunidades quilombolas Kalunga visando a preservação ambiental, o desenvolvimento econômico e o fortalecimento da organização social e cultural do território.
            Por decisão dos integrantes dos grupos de teatro VSLT e Arte Kalunga Matec, integrantes da comissão organizadora, decidimos realizar as apresentações teatrais em espaços abertos da cidade, e não mais no mesmo local em que estaria ocorrendo o seminário, as oficinas e os laboratórios. Desse modo, as peças do Coletivo Fuzuê foram realizadas na praça do Fórum (Experimento Confere) e na Feira do agricultor (Experimento Fuzuê), e a peça do Coletivo quilombola Vozes do Sertão Lutando por Transformação (VSLT) foi apresentada na praça Primavera, no bairro da Vila. 
Segundo Raiane Gonçalves – formanda na oitava turma da Licenciatura em Educação do Campo da UnB, a turma Ganga Zumba, integrante do coletivo VSLT e autora da monografia de conclusão de curso “Teatro político como luta emancipatória das comunidades tradicionais” – o público da cidade elogiou as três peças e várias pessoas começaram a procurar o VSLT interessadas em participar do grupo. Há depoimentos de pessoas que alegaram ter mudado de opinião a respeito da mineração após terem assistido a peça “Se há tanta riqueza por que somos pobres?”, conta Raiane. A peça apresenta e discute os prós e contras do modelo de exploração vigente e a conveniência de sua entrada na região. Ao final uma envolvente assembleia é realizada misturando o elenco ao público e a decisão é por rejeitar que esse modelo adentre ao território e as comunidades.
De acordo com os coordenadores do VSLT Ana Leda e Carlos Conceição, organizadores do módulo em Cavalcante “o módulo em Cavalcante, foi um grande salto na formação política dos grupos de teatro, reforçando as nossas pautas. Foram muito  importantes e produtivas as oficinas, as apresentações teatrais,  a convivência. No módulo 2 o nosso coletivo pôde identificar com qual teatro trabalhamos, aprendemos técnicas  novas para  trabalho no coletivo  VSLT.Nossa avaliação é que foi um espaço de muita produtividade, organização social e crescimento intelectual. Foi uma sacada muito boa os professores trabalharem a teoria, junto com os movimentos, construção de cenas, facilitando esse primeiro contato. Outro saldo positivo foi os grupos de teatros fazerem os espetáculos em espaços públicos abertos, quebrando uma parede e proporcionando que a comunidade assistisse as intervenções. Analisamos que esse foi um dos mais produtivos espaços de diálogo com a linguagem artística e pensamento dos grandes pensadores do teatro político”.
No último dia da atividade foi realizada uma visita guiada em áreas de mineração que ocorrem na região. A visita teve início em frente à mineração Penery, mineradora de ouro (hoje desativada), que pertence a essa empresa desde 1998. Porém, o histórico de mineração da área remonta a 1740 quando se inicia a extração artesanal de ouro na região.
A partir de 1970, a área começa a ser explorada como garimpo subterrâneo e na década de 1980, empresas privadas passam a controlar a área a partir da concessão de lavra e as galerias se aprofundam até 70 metros. Existem estudos que atestam que o minério de ouro da Mina Buraco do Ouro, nome que a área é conhecida, está associado à mineralização de prata e de elementos do grupo da platina (utilizado, principalmente, na indústria automotiva, indústria química/petroquímica, indústria joalheira, indústria do vidro, indústria de materiais odontológicos e materiais medicinais). 
Foi na mina Buraco do Ouro que um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (Nilson Botelho e colaboradores) identificou um mineral de ocorrência única no mundo, que recebeu o nome de Kalungaíta. 
Durante a visita, foi abordado o histórico da mina, foram apresentados os principais processos que ocorrem no espaço da mineração (da extração ao beneficiamento) e a exposição dos riscos e impactos que a cidade de Cavalcante está sujeita. Também visitamos a área de estocagem e britagem do minério de manganês, explorado em áreas da mina em operação localizada em região vizinha ao território quilombola Kalunga, utilizando-se das estradas que ligam a cidade à algumas comunidades do território, degradando a estrada, como foi possível presenciar no caminho para a comunidade Engenho II.
Ao final da visita, o grupo visitou a comunidade Engenho II, conheceu a cachoeira da Capivara e assistiu a uma breve apresentação da comunidade, da escola e das atividades de turismo que os moradores gerenciam na região do quilombo.
Cavalcante reduz, em escala particular, as contradições da desigualdade brasileira. A despeito de ser um território rico em minérios, em recursos hídricos, em fauna e flora, tem um dos menores IDHs dos municípios brasileiros. Apesar de ser a cidade que abriga em seu distrito a maior parte dos 254 mil hectares do quilombo Kalunga, o maior do Brasil, essa memória não se reverte em presença efetiva nos postos políticos e na consciência racial da maioria da população. 
Todavia, essa é uma realidade que está sendo modificada de forma acelerada: no final de 2018 a cidade abrigou o primeiro encontro de estudantes universitários quilombolas, as associações comunitárias estão em nível crescente de organização e participação, a presença dos grupos comunitários de teatro, audiovisual e manifestações de cultura tradicional kalunga têm aumentado, e cresce em escala exponencial a quantidade de professores quilombolas Kalunga formados nos cursos da UnB, UFG, UFT, do IFG e da UEG. O poder público municipal, reconhecendo essa dinâmica crescente, mantém aberto o pólo da Universidade Aberta do Brasil para receber os cursos e seminários promovidos pelas universidades, o que amplia em muito as possibilidades de formação e realização de atividades diretas com as comunidades, articulando as dimensões do ensino, pesquisa e extensão no território.
                                                                                   Por Rafael Litvin Villas Bôas e Caroline Siqueira Gomide[3]
Planaltina, 06 de março de 2019.


[1]A atividade é parte integrante do projeto contemplado pelo edital EDITAL Nº 01/2018 PROGRAMA DE EXTENSÃO EM EDUCAÇÃO, TRABALHO E INTEGRAÇÃO SOCIAL do Decanato de Extensão (DEX) da Universidade de Brasília, resultado do acordo entre a UnB e o Ministério Público do Trabalho (MPT) no PAJ 000608.2009.10.000/8-01.
[2]Mais informações podem ser obtidas no blog www.terraemcena.blogspot.com
[3]Professores do campus de Planaltina da UnB. Coordenam respectivamente os programas de extensão Terra e Cena e Território Kalunga. Integrantes do Colegiado de Extensão da FUP.

Mais fotos: 





quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Confira a programação e faça sua inscrição na 2ª Turma da Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do DF




A Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do Distrito Federal abrirá a segunda turma, no dia 18 de fevereiro, tendo a honra de receber para os dois primeiros módulos um grupo de pesquisa e um elenco com duas peças em repertório da Universidade Federal de São João Del Rei.
Entre os dias 18 e 20 de fevereiro ocorrerá o módulo de abertura, em Brasília. E o segundo módulo ocorrerá entre 21 e 24 de fevereiro, na cidade de Cavalcante, e terá a parceria de dois grupos de teatro quilombolas ligados ao Terra em Cena, o Vozes do sertão lutando por transformação e o Arte Kalunga Matec, além de associações comunitárias quilombolas da região. Segue a programação detalhada dos módulos.
A segunda turma da ETPVP-DF terá dinâmica diferente do método adotado na primeira turma. Ao invés de um ano e meio de formação, concentraremos as atividades entre fevereiro e dezembro de 2019, e durante esse período organizaremos diversas atividades de formação: módulos sequenciais de formação em teatro político e vídeo popular, palestras e seminários, ensaios e apresentações do elenco da escola,  ações do coletivo de vídeo popular e atividades de tempo comunidade, que visam fortalecer e dinamizar a rede de espaços como casas de cultura, escolas públicas, campus de universidades e institutos e centros de formação de movimentos do campo e da cidade.
Cada atividade funcionará como unidade autônoma, com certificação específica, e para quem quiser se formar na segunda turma, o critério será o cumprimento de duzentas horas de formação, considerando a somatória da participação em atividades ofertadas pela escola durante o ano.

Segue link da inscrição:


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

ETPVP-DF abre a segunda turma no dia 18 de fevereiro e realiza dois módulos iniciais com a presença do Coletivo Fuzuê e dos professores Carina Guimarães e Berilo Nosela que coordenarão seminário, laboratório e o elenco apresentarão dois experimentos “Fuzuê” e “Confere”.



A Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do Distrito Federal abrirá a segunda turma, no dia 18 de fevereiro, tendo a honra de receber para os dois primeiros módulos um grupo de pesquisa e um elenco com duas peças em repertório da Universidade Federal de São João Del Rei.
Entre os dias 18 e 20 de fevereiro ocorrerá o módulo de abertura, em Brasília. E o segundo módulo ocorrerá entre 21 e 24 de fevereiro, na cidade de Cavalcante, e terá a parceria de dois grupos de teatro quilombolas ligados ao Terra em Cena, o Vozes do sertão lutando por transformação e o Arte Kalunga Matec, além de associações comunitárias quilombolas da região. Em breve divulgaremos as informações detalhadas dos dois módulos.
A segunda turma da ETPVP-DF terá dinâmica diferente do método adotado na primeira turma. Ao invés de um ano e meio de formação, concentraremos as atividades entre fevereiro e dezembro de 2019, e durante esse período organizaremos diversas atividades de formação: módulos sequenciais de formação em teatro político e vídeo popular, palestras e seminários, ensaios e apresentações do elenco da escola,  ações do coletivo de vídeo popular e atividades de tempo comunidade, que visam fortalecer e dinamizar a rede de espaços como casas de cultura, escolas públicas, campus de universidades e institutos e centros de formação de movimentos do campo e da cidade.
Cada atividade funcionará como unidade autônoma, com certificação específica, e para quem quiser se formar na segunda turma, o critério será o cumprimento de duzentas horas de formação, considerando a somatória da participação em atividades ofertadas pela escola durante o ano.
Até o dia 05 de fevereiro circularemos o formulário de inscrição para segunda turma e as informações detalhadas dos dois primeiros módulos. Vejam abaixo as informações dos experimentos cênicos, do laboratório e do seminário que o grupo da UFSJ trará para a ETPVP-DF.

Segue link da inscrição: 
https://drive.google.com/open?id=1HEIz_Nxbh1Y30ZCYFuUQOmhTWCqM3FXVWIb289GWBws 
Sinopse do experimento Fuzuê: 
Fuzuê


Que tempos são esses, quando o falar de flores é quase um crime, 
pois significa silenciar sobre tanta injustiça? 

(Trecho do poema “Aos que virão depois de nós” de Bertold Brecht)  


Fuzuê é um experimento cênico construído a partir de relatos que transitam entre o passado histórico do país e a atualidade, trazendo para o palco reflexões dede a época da escravidão, chegando aos dias de hoje. As questões levantadas no experimento são apresentadas de forma não cronológica, problematizando e trazendo diversas perspectivas da luta de classes e das questões sociais no Brasil em seu momento atual. A palavra Fuzuê, de origem africana, significa confusão, barulho, trazendo à tona diversas vozes dissonantes e refletindo sobre nossa formação social, cultural e histórica.
Ficha técnica:
Direção e coordenação: Carina Maria
Iluminação: Laboratório de Iluminação Cênica da UFSJ – Coordenação: Berilo Nosella / Responsável: Beatriz Nitoli
Elenco: 
Ana Paula Milagres Tostes 
Bárbara Fátima dos Santos Lara 
Beatriz Valquíria Ribeiro 
Carlos Henrique Aurelio Dos Santos
Héricles Gomes de Araújo 
Jhonata Francisco Castorino 
Confecção de figurinos: Eliza Art 

Sinopse do experimento Confere: 
 OFICINA:
LABORATÓRIO COLETIVO FUZUÊ
Profa. Carina Maria Guimarães Moreira e integrantes do Coletivo Fuzuê

Coletivo Fuzuê é um Grupo de Teatro Universitário que se configura como um Núcleo de Pesquisa e Extensão desenvolvido no âmbito do Grupo de Pesquisa em História, Política e Cena-GPHPC (CNPq) da UFSJ O mesmo, desenvolveu-se a partir dos resultados de dois projetos Coordenados pela Profa. Dra. Carina Maria Guimarães Moreira: o projeto de pesquisa “As formas do político na cena contemporânea” e o projeto de extensão “A cena política”. O Laboratório Coletivo Fuzuê propõe, a partir de uma oficina prática, expor alguns dos procedimentos pesquisados e utilizados nos últimos experimentos cênicos. Da ideia desenvolvida por Piscator de “elevação das cenas particulares ao histórico” (157) e da investigação em torno da cultura afro-brasileira o Coletivo Fuzuêtem desenvolvido alguns procedimentos para a construção de dramaturgia própria, que propõem dialogar com os processos políticos e sociais de contextos variados. 

BIBLIOGRAFIA:
PISCATOR, Erwin. Teatro político. Trad. Aldo Della Nina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito da história, 1940. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Breve Currículo:
Carina Maria Guimarães Moreira é professora do Programa da Pós-Graduação em Artes Cênicas PPGAC-UFSJ e dos Cursos de Graduação em Teatro (Bacharelado e Licenciatura) da Universidade Federal de São João Del Rei – UFSJ, nas áreas de Direção Teatral, Iluminação Cênica e Elementos Plásticos da Cena. Atua fundamentalmente nos seguintes temas: direção teatral, teatro político; iluminação cênica, análise da cena teatral e cultura afro-brasileira. Realizou Pós-Doutorado (março de 2017 a abril de 2018) no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UNICAMP – SP. Doutora em Teatro pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO (2014). Mestre em Teatro pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO (2009). Bacharel em Direção Teatral com Graduação em Artes Cênicas na Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP (2006). É vice-líder do Grupo de Pesquisa (CNPq) em História, Política e Cena-UFSJ e pesquisadora do Grupo de Pesquisas em Artes Cênicas – UFSJ e Grupo de Estudos em Dramaturgia Letra e Ato – UNICAMP. Atualmente exerce o cargo de chefe do Departamento de Artes da Cena da UFSJ.

SEMINÁRIO:
APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DA ILUMINAÇÃO CÊNICA.

Prof. Dr. Berilo Luigi Deiró Nosella (UFSJ)

Release:
O presente seminário propõe apresentar aos alunos o contexto histórico, as ideias e as propostas estéticas da cena moderna a partir da incorporação dos potenciais da iluminação elétrica entre o final do séc. XIX e início do séc. XX. Com foco inicial nos movimentos naturalista e simbolista, séc. XIX, e seus desdobramento no trabalho de artísticas do início do século XX – como Pirandello, Piscator e Brecht –, propõe-se mostrar como tais novos potenciais técnicos foram incorporados como linguagem para composição do que chamamos de Teatro Moderno.
O presente Seminário originou-se da pesquisa de pós-doutorado – “Capocomicato e metateatro: o fazer e o pensamento da iluminação na dramaturgia pirandelliana” – realizada entre agosto de 2017 e julho de 2018 no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas-PPGAC da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro-UNIRIO, na linha de pesquisa em História do Teatro e das Artes-HTA, sob supervisão da profa. Dra. Maria de Lourdes Rabetti (Beti Rabetti), com bolsa do Programa Nacional de Pós-Doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-PNPD/CAPES. A versão atual, aqui proposta, foi repensada a partir dos resultados parciais da pesquisa “Iluminação cênica e metateatro: o fazer e o pensamento da iluminação entre o real e o ficcional”, desenvolvida desde agosto de 2018, no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de São João del Rei-UFSJ, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais-FAPEMIG (Chamada 01/2018 - Demanda Universal) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq (Chamada 28/2018 Universal). 
Em sua primeira versão, o presente seminário foi apresentado pela primeira vez na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro-UNIRIO, numa ação conjunta da Escola de Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, em abril de 2018. A segunda versão foi apresentada até o momento no Instituto de Artes-IA da Universidade Estadual Paulista-UNESP, em ação do Programa de Pós-Graduação em Artes da UNESP e da SP Escola de Teatro, em parceria com o PPGAC-UFSJ. Até o momento, para além desta sua apresentação na UnB, estão confirmadas realizações do presente seminário na Universidade Federal de Uberlândia, Universidade Federal de Ouro Preto, Universidade Tecnológica Federal do Paraná e Universidad Nacional de las Artes-UNA (Buenos Aires-Argentina).

Nesta versão do Seminário para Brasília, propõe-se sua realização em 2 módulos de 3h (já incluídos momento para perguntas e debates), sendo:

§ Módulo 1 – Panorama de história da iluminação: a iluminação elétrica, a lâmpada de Edson e a cena moderna: Antoine, Appia e Craig; 
§ Módulo 2 – Pirandello iluminador: tecnologia e fascismo; Piscator: tecnologia e história; Brecht: luz natural ou estilização estética.


BIBLIOGRAFIA INDICADA PARA ACOMPANHAMENTO DOS MÓDULOS:
•           Módulo 1 – Textos:
o          ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral, 1880-1980. Trad. Yan Michalski. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
o          NOSELLA, Berilo L. D. Por uma história do pensamento sobre o fazer da iluminação cênica moderna: a cena além do humano. Urdimento – Revista de estudos em artes cênicas, v. 1, n. 31, Florianópolis: UDESC, 2018 (p.20-37). Disponível em http://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573101312018020. DOI: 10.5965/1414573101312018020. Acesso em 07/05/2018.
ANTOINE, André. Conversas sobre a encenação.Trad. Walter Lima Torres. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.
o          APPIA, Adolphe. A obra de arte viva. Trad. Redondo Jr. Lisboa: Arcádia, s/d.
o          CRAIG, Gordon. Rumo a um novo teatro & Cena.Trad. Luiz Fernando Ramos. São Paulo: Perspectiva, 2017.

•           Módulo 2 - Textos:
o          PIRANDELLO, Luigi. “Seis personagens em busca de um autor” (trad. Roberta Barni e J. Guinsburg); “Esta noite se representa de improviso” (trad. Sérgio Coelho e J Guinsburg); “Cada um a seu modo” (trad. Pérola de Carvalho e J. Guinsburg). In GUINSBURG, Jacó. Pirandello: do teatro no teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999. p.179 - 384.
o          SIMÕES, Cibele Forjaz. À luz da linguagem: a linguagem da iluminação cênica de instrumento da visibilidade à dramaturgia do visível & outras poéticas da luz. Tese (Doutorado em Artes Cênicas). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013.
o          PISCATOR, Erwin. Teatro político. Trad. Aldo Della Nina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
o          BRECHT, Bertolt. A compra do latão. Trad. Urs Zuber. Lisboa: Vega, 1999.


BIBLIOGRAFIA GERAL DO SEMINÁRIO:
APPIA, Adolphe. La musique et la mise-em-scèneBerna: Theaterkultur-Verlag, 1963.
______. “La mise em scene du drame wagnèrien”. In Oeuvres Complètes, Tome I. Lausanne: Société Suisse du Théâtre/L’Âge d’Homme, 1983.
ARONSON, Arnold. “Postmodern desing”. Theatre journal, Baltimore, v. 43, p. 1-13, 1991.
BABLET, Denis. “A luz no teatro” in O teatro e sua estética. Trad. Redondo Júnior. Lisboa: Editora Arcádia, 1964.
______.Esthétique générale du décor de théâtre de 1870̀ a 1914. Paris: Éditions du Centre National de la Recherche Scientifique, 1965.
CAMARGO, Roberto Gill. Função estética da luz. São Paulo: Perspectiva, 2012.
CRAIG, Edward Gordon. Da arte do teatro. Trad. Redondo Júnior. Lisboa: Editora Arcádia, 1963.
D’AMICO, Alessandro; TINTERRI, Alessandro.Pirandello capocomico: la Compagnia del Teatro d’Arte di Roma 1925-1928. Palermo: Sellerio, 1987
DORT, Bernard. “A representação emancipada”. Trad. Rafaella Uhiara In Revista Sala Preta, vol. 13, n. 1. São Paulo, jun 2013, p. 47-55
DORT, Bernard. O teatro e sua realidade.Trad. Fernando Peixoto. São Paulo: Perspectiva, 1977.
FOSTER, Hal. Vision and visuality. Settle: Bay Press, 1988.
FULLER, L. Fifteen years of a dancer’s life. Londres: Herbert Jenkins Limited, 1913.
GRAZIOLI, Cristina. Luce e ombra: storia, teorie e pratiche dell'illuminazione teatrale. Roma-Bari, Laterza, 2008.
______. Pontos críticos e equilíbrios dinâmicos: estudar a História do Teatro de Figura. Moin Moin, revista de estudos sobre teatro de formas animadas. Ano 12, número 16, p. 17-39, 2016. Disponível em: http://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/2645/revista_moin_moin_16_15002287209367_2645.pdf. Acesso em: 7 ago. 2017.
JULLIEN, Jean. Le Théâtre vivantParis: 1892.
MARINETTI, F. T. “Manifesto Futurista – 1909”, s.d. Disponível em: https://memoriavirtual.net/2005/02/21/futurismo-manifesto-futurista-2/. Acesso em: 25 maio 2017.
PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal. 1ª ed. São Paulo: Abril, 1978.
PIRANDELLO, Luigi. Sei personaggi in cerca d'autore, Ciascuno a suo modo e Questa sera si recita a soggetto. In Maschere nude Vol. III. 7ª ed. a cura di Alessandro D’Amico. Milano: Garzanti Libri, 2015. (e-book)
GUINSBURG, Jacó. Pirandello: do teatro no teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999. p.179 - 384.
RAMOS, Luiz Fernando. “O projeto Scene de Gordon Craig: história aberta à revisão”. InRevista Brasileira de Estudos da Presença, v. 4, n. 3, Porto Alegre, set./dez. 2014, p. 443-462. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/index.php/presenca/article/view/49083. Acesso em 14 de outubro de 2017.
SARAIVA, Hamilton Figueiredo. Iluminação teatral: história, estética e técnica. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Teatro – ECA – USP, São Paulo, 1989.
SARRAZAC, Jean-Pierre. A invenção da teatralidade. Revista Sala Preta, v. 13, n. 1, 2013. Disponível em https://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/57531. DOI: 10.11606/issn.2238-3867.v13i1p56-70. Acesso em 16/02/2018.
TUDELLA, Eduardo A. da Silva. A luz na gênese do espetáculo. Salvador: EDUFBA, 2017.
WILLIAMS, Raymond. Drama em cena. Trad. Rogério Bettoni. São Paulo: Cosac & Naify, 2010.
ZOLA, Emile. O naturalismo noteatro. São Paulo: Perspectiva, 1979.

Breve currículo:
Berilo Luigi Deiró Nosella é professor de Iluminação Cênica e Direção Teatral, atuando na área de Teoria, Análise e História e Historiografia do Texto e da Cena Teatral, do Curso de Graduação em Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas do Departamento de Artes da Cena da Universidade Federal de São João del Rei - UFSJ. Graduado em Artes/Comunicação - Bacharelado em Imagem e Som pela UFSCar (2001); mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP (2007); e doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO (2008), onde também realizou seu pós-doutorado, concluído em 2018. É Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq) em História, Política e Cena-UFSJ e pesquisador vinculado aos Grupos de Pesquisa do CNPq: Estudos de História e Historiografia do Espetáculo-UNIRIO e História e Teatro-UFU. Tem experiência na área de Artes-Teatro, com ênfase em Teoria e História do Teatro, Análise do Texto e de Cena Teatral e Elementos Visuais do Espetáculo, atuando principalmente nos seguintes temas: Teoria e História do Teatro, Dramaturgia Moderna, Dramaturgia Moderna Brasileira, História e Formação do Teatro Brasileiro, Iluminação Cênica e Encenação.

FOTOS DO LABORATÓRIO COLETIVO FUZUÊ:



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A Escola de Teatro Politico de Buenos Aires: território de resistência popular


Apesar do processo de gentrificação do bairro Palermo, em Buenos Aires (Argentina), lá persiste um espaço de dinamização da cultura política, do direito à alimentação e da economia autogestionária de trabalhadores/as. Neste espaço, pertencente ao Estado,   conquistado pela vizinhança para a realização das assembleias populares em 2001 e mantido pela luta do Movimento Popular La Dignidad, se constituiu um território muito instigante de resistência popular pela via da arte: a Escola de Teatro Político de Buenos Aires, integrada ao Teatro Popular La Otra Cosa. 
A escola nasceu há 4 anos e desde então segue forte,  gerida por meio de assembleias gerais nas quais tomam parte estudantes, professores/as e graduadas/os, alguns dos quais são  militantes de La Dignidad. O desafio de tal instância de decisão é levar a cabo, no cotidiano da Escola, um método e uma concepção de trabalho capaz de articular arte e política no processo de luta e de emancipação dos/as trabalhadores. 
Os estudantes da Escola são jovens e adultos provenientes de movimentos populares, universidades, trabalhadores autônomos e educadores de escolas públicas, os quais semanalmente se reúnem, durante dois anos,  para refletir e vivenciar o trabalho cultural com teatro, alternativo ao da indústria cultural.
Em seu currículo, a formação da Escola articula a dimensão estética à ética, colocando em realce a ideia de que o componente  político emancipatório não pode se separar da(s) forma(s) que a ele corresponda(m).  Nesse sentido, o percurso formativo proposto passa por uma diversidade de disciplinas e atividades. 
1o ano: aulas de Teatro do Oprimido, Teatro épico de Bertolt Brecht, História do teatro político-disciplinas fechadas para estudantes. Clown, Seminário de Atuação e Canto Comunitário-aberto a toda a comunidade e demais alunos que não os do 1o ano.
2o ano: teatro do oprimido (aprofundamento - teoria e prática de coringagem), educação popular, montagem (síntese do que se aprende em outras disciplinas é feita nesta disciplina). 
Transversal às duas turmas se desenvolve a disciplina de teatro comunitário, realizada na Praça do Bairro Rivadavia, (“Bajo Flores”) com a participação de moradoras da comunidade boliviana, bem como as mostras teatrais da Escola. 

Além disso, são desenvolvidas atividades de formação em marchas e atos públicos em defesa dos direitos humanos.
A cobertura dos custos da escola é realizada mediante diferentes e conjugadas estratégias. Na primeira assembleia deste foi pautado que os/as estudantes pagassem uma contribuição mensal de 500 pesos argentinos, mas a decisão final foi que  só pagam aqueles que possuem condições econômicas favoráveis. Neste contexto, se nota um empenho de toda a comunidade da escola para gerar outras fontes de ingresso, como por exemplo, preparar e vender alimentos na cantina do teatro durante as mostras e festivais.
É importante assinalar que os professores da Escola atuam voluntariamente, impulsionados pelo seu compromisso com o teatro e militância. Estudantes que se formaram na primeira turma da escola hoje integram a equipe docente, formando duplas pedagógicas junto com professores mais experientes.
No início de novembro os/as companheiros/as da Escola de Teatro Politico de Buenos Aires acolheram uma das participantes do Terra em Cena/Cenas Camponesas, para com ela compartilhar no que consiste  a experiência  da Escola, que, assim como o programa de extensão brasileiro, também integra a rede Nuestra América. Por meio dos diálogos e vivências estabelecidos na ocasião, evidenciou-se a necessidade de avançarmos no processo de um intercâmbio da Rede Nuestra América, inclusive para fortalecer o horizonte de sentido e consciência possibilitado pelo teatro político, tão necessário para fazer frente ao refluxo da democracia na América Latina e destacadamente no Brasil. 

Kelci Anne Pereira – Professora da UFPI Campus Bom Jesus

Fotos: 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Teatro político e racismo: cenas de desopressão no Semex/UFPI.



"A carne mais barata do mercado é a carne negra", catavam alguns.  "Segundo o Mapa da Violência de 2014, 20.852 jovens negros  foram mortos entre 1980 e 2011, três vezes mais que o número de homicídios de jovens brancos", bradavam outros.   "Entre trabalhadores/as que possuem ensino superior, as mulheres negras recebem salários 36% menor do que os das mulheres brancas e 130% do que os dos homens brancos " , entoavam outros. 
Em uníssono som e movimento, funcionários e estudantes  foram entrando em cena para tratar do racismo no Brasil. Estávamos no início de novembro, no campus da UFPI em Bom Jesus/PI, no contexto da oficina "Teatro político: cenas da desopressão", no SEMEX (Seminário de Cultura e Extensão). Durante um dia longo e de intenso trabalho nos dispusemos a articular arte e política para o desmonte ideológico da democracia racial no Brasil: este mito que permanece como nosso espinho na carne desde tempos imemoriais. 
Dispondo de algumas técnicas e ferramentas do teatro épico, os participantes da oficina lançaram-se no desafio de  historicizar e didatizar as causas e efeitos do problema. A situação escolhida para tal foi a chacina  de um grupo de jovens da zona metropolitana do Rio de Janeiro, deflagrada pela polícia em março de 2018, durante um evento de hip hop.
  A partir de notícias de jornais e análises da situação feitas pelo movimento negro, foram incorporadas à cena as versões do fato: da polícia, impune, justificando o ato como resposta à delinquência dos jovens, acusados de uso de drogas. Familiares e ativistas afirmando tratar-se de um projeto sistemático de extermínio da juventude negra, a partir de um marco jurídico antidrogas que ao invés de focalizar direitos, promove a criminalização das parcelas mais vulneráveis da juventude.  A cena ainda levanta a hipótese de que as substâncias  ilícitas tenham sido colocadas pós morte nas mãos das vítimas, para encobertar um crime político, já que tratavam-se de jovens ativistas do movimento hip-hop.
A preocupação do grupo de participantes centrou-se ainda em evidenciar o racismo como um problema histórico, que não se encerrou em 1888, mudando somente em sua roupagem: outrora o senhor (e seu capitão do mato, um negro) contra os escravos; agora o Estado e sua justiça burguesa (atuante meio da polícia, muitas vezes negra)contra os que têm o "defeito de cor". Outrora açoitar para dar o exemplo aos outros de como se pune qualquer desobediência: chibatadas autorizadas por lei até o número 50, mas que inúmeras vezes eram excedidas ao extremo de causarem a morte do escravo; agora, aos que teimam em fazer da arte e da música sua resistência, novas demonstrações de força que levam a um desfecho muito semelhante e sempre envolvendo a artimanha de tornar inimigos quem não deveria ser : trabalhadores negros. 
A cena buscou explicitar que a demonstração de poder, força e dominação racial tem por finalidade transformar em coisa  um povo  - no caso o povo negro, massacrar seu senso de ser gente,  impingir em sua alma o sentido da servidão,  impedindo-o de ver-se a si mesmo como grupo portador de direitos, de reagir com rebeldia e organizadamente a qualquer forma de exploração e desumanização.

A oficina  foi ministra da pelo Coletivo Cenas Camponesas, nascido de um projeto de extensão a UFPI e que atua em colaboração com o coletivo Terra em Cena da UNB. O objetivo da atividade foi apresentar para um público iniciante no que consiste e quais as raízes históricas do teatro político e  quais suas intencionalidades  métodos e técnicas de representação da realidade. Sob tal perspectiva, a oficina foi pensada para problematizar como se pode tecer a amarração entre forma estética e social  para construir narrativas contra hegemônicas, colocando em cena o que os meios de comunicação de massa não colocam:  os trabalhadores e o modo como analisam os problemas da sociedade capitalista, suas resistências e as poéticas e políticas a elas subjacentes, os meandros pelos quais se produzem como classe consciente de si. 
Em termos metodológicos, destacaram-se na oficina: o uso de uma instalação pedagógica para explicar as origens e elementos (narrador, prólogo, coro, etc..) do teatro Épico, do Oprimido e AgitProp, enfeixados na categórica de teatro político; os jogos e exercícios teatrais, ligados à desmecanização do corpo, geração de confiança, atenção e criatividade;  rodas de conversa para sedimentar a experiência sensível e racional e fazê-la convergir para a construção de uma cena sobre racismo. 
Durante esses momentos da oficina fomos tematizado o teatro político como uma práxis  de formação dos sentidos e da consciência, bem como de organização social do povo. Também discutimos o fazer teatral como um processo de trabalho (o trabalho da cultura) fundamental à democratização da sociedade brasileira.
Experimentamos o corpo em movimento no tempo e no espaço, articulando palavra e imagem à  ética da desopressão. Fomos tentando misturar os ingredientes usados no teatro que, assumidamente político,  tenta dar força, pelas formas de comunicação e expressão que incorpora às narrativas de questões sociais desde uma perspectiva coletiva, contraditória, histórica. 
Como parte das reflexões da oficina, também dialogamos que, assim como o racismo, outros temas de ordem emancipatória podem ser abordados teatralmente, como por exemplo, o feminicídio,  a concentração de terras e a violência no campo, a misoginia, a exploração do trabalho infantil. Em todo caso, o trabalho de pesquisa e compreensão da realidade, bem como de experimentação com a linguagem,  precisa ser feito para provocar a reflexão e o encontro desnaturalizado do público com a cena. O que parece óbvio deve ser revirado pela cena, a relação causa de efeito precisa ser perscrutado, o público deve estranhar o que vê e o elenco surpreender-se em cada atuação. Na tentativa de construir um teatro da desopressão (não burguês e não dramático), educativo para o público e para o elenco, tratamos também do teatro fórum, em que a quarta parede é rompida e os expectadores entram em cena para resolver o conflito, tornando-se o que Boal chama de expect-atores. 
Com reflexões como essa encerramos a oficina, mas não o Semex, nem o que de arte e cultura houve no evento. Para  fechar o seminário,  o coletivo Cenas Camponesas apresentou ( pela 4ª vez) a peça "Luta nossa, camponesa!", que trata da grilagem digital de terras no sul do Piauí e de uma série de conflitos no campo envolvendo a expropriação de trabalhadores camponeses.
 Na sequência, houve a premiação dos melhores trabalhos de extensão apresentados durante o evento. Duas  das três premiações foram dirigidas a artigos produzidos no âmbito do Coletivo Cenas  Camponesas. A premiação marcou o reconhecimento público da relevância epistêmica e metodológica do projeto para a formação humana.
O teatro político, na extensão,  é um pequeno ensaio da  mudança que queremos ver nas pessoas, para que elas transformem o mundo. Precisamos expandi-lo, colocá-lo como forma de mediação e ação com o povo, com os trabalhadores, com os movimentos em todos os espaços. Acontecer na universidade é importante, mas não basta: o teatro deve estar nas ruas, praças, nas roças e fábricas. Em todos os lugares onde houver gente, onde a opressão estiver... Façamos presentes nossos coros, teses, prólogos, canções e corações, reinventando na imaginação a mudança da realidade. 


Kelci Anne Pereira – Professora da LEdoC/UFPI - Campus Bom Jesus
Coordenadora do Cena Camponesas



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