Nos dias 29 e 30 de maio de 2026, aconteceram oficinas de teatro político e gestão cultural junto com os grupos de teatro Jiquitaias e Encena Kalunga do Território Quilombola Kalunga, em suas comunidades, para retomada e preparação das cenas e do elenco para participarem da 8ª Mostra Terra em Cena e na Tela, com data prevista para acontecer entre os dias 20 e 22 de agosto de 2026 na FUP/UnB.
Essas ações formativas nos territórios de Teresina e Cavalcante integram os objetivos do Terra em Cena em promover a socialização dos meios de produção teatral, o debate sobre a permanência dos grupos, processos de organização social, atuação comunitária e crítica por meio de linguagens artísticas.
Encontro com o Grupo Jiquitaias – Teresina de Goiás (29/05/2026)
No dia 29 de maio, no período da tarde, o encontro foi na Comunidade Diadema em Teresina Goiás, embaixo do pequizeiro em frente à Escola Municipal de Educação Escolar Quilombola Tia Adesuíta, quem abriu os caminhos e recebeu o coletivo Terra em Cena para a imersão formativa, foi a professora Núbia, mestranda do PROFArtes/UnB, egressa da LEDOC/UnB e integrante fundadora do grupo Jiquitaias. Estavam presentes 12 integrantes do Jiquitaias, sendo sua maioria novos no grupo e com uma diversa faixa etária entre 8 e 33 anos.
Esse momento, iniciou em roda com apresentação dos presentes e na sequência a professora Núbia contou a história do início do grupo, o significado do nome Jiquitaias (formigueiro que defende o seu território), distribuiu impresso as duas “escrituras das cenas” que o grupo já criou.
A primeira peça “Café, farinha e rapadura: uma pitada de história libertadora”, de autoria coletiva de Núbia, Luan e Bárbara, passa no cenário de uma casa de farinha da comunidade, em formato de conversa e o descascar da mandioca conta a história do Quilombo Kalunga desde o momento da escravização que foram levados para a região a força para trabalhar até a resistência e a fuga para formar o quilombo e suas formas de organização contemporâneas no enfrentamento às mineradoras e a garantia da titulação de terra quilombolas.
A segunda cena, nomeada até o momento de “Sobre as plantas medicinais”, com autoria de Núbia, Luan e Edna, apresenta epistemologias em saúde transmitidos de geração em geração, ao utilizar as plantas como alimentos, remédios e benzimentos, com personagens anciãs que conversam em cena com o público e jovens que buscam curar suas mazelas do cotidiano com raízes, folhas e garrafadas. Todas as receitas são ensinamentos de suas mais velhas e revelam as tradições quilombolas e a sabedoria ancestral das plantas medicinais na permanência da Cultura Kalunga. Núbia, expressa a vontade de juntar as duas cenas em uma única dramaturgia para apresentar na mostra em agosto.
Na sequência, realizamos jogos teatrais do Teatro do Oprimido, como: andando no espaço e suas variações para reconhecimento do espaço delimitado, interação e confiança entre o grupo com o gesto de olhar no olho; o seguinte jogo realizado foi rato e gato que motivou a concentração do grupo em que uns estavam mais agitados e outros menos participativos, criando um momento de brincadeira e presença corporal; outro jogo proposto foi de teatro imagem, a Homenagem a Magritte dando novos sentidos a garrafa que estava ao centro, trazendo referências do cotidiano comunitário de Diadema. Nesse momento, a participação do Jiquitaias nos transporta para a diversidade de atividades que a comunidade exerce, desde o futebol, a casa de farinha, o plantio na roça às cantigas e instrumentos da sussa, evidenciando a relação com a natureza e a cultura do povo Kalunga.
A segunda parte da atividade foi dedicada à construção coletiva de um plano de trabalho, o grupo refletiu sobre seus objetivos, desafios e estratégias de organização, mapeou habilidades e divisão de tarefas. Esse processo de formação em gestão e produção cultural em perspectiva popular e comunitária, proposto por Viviane Pinto, nos colocou os desafios de logística para a participação na 8ª Mostra.
Encontro com o Grupo Encena Kalunga – Cavalcante (30/05/2026)
No dia 30 de maio de 2026, reunimos com o grupo Encena Kalunga, o encontro foi realizado na Escola Municipal Tia Cici, em Cavalcante (GO), no período da manhã e da tarde, estavam presentes todos os integrantes do grupo: Hyori, Aparecida, Brenda, Ariel, Danilo e Nelma, estudantes da LEdoC/UnB das áreas de conhecimento em Linguagens e Ciências da Natureza, além de quatro integrantes da operativa do Terra em Cena.
O encontro iniciou-se com uma roda de apresentação e compartilhamento do processo criativo em andamento. Os participantes apresentaram ideias e pesquisas que vêm desenvolvendo para a construção de uma peça sobre a Luta contra o feminicídio e as múltiplas formas de violência contra as mulheres.
A conversa rapidamente se aprofundou, trazendo relatos de violências e dores que passaram de geração em geração até casos observados no cotidiano do território e/ou que tiveram acesso com ampla divulgação nas redes sociais.
Diante desse contexto, emergiu um importante desafio dramatúrgico e político: construir uma obra de denúncia e anúncio – que não se limitasse apenas à denúncia das violências, mas que também possibilitasse refletir coletivamente sobre caminhos de enfrentamento, proteção e identificação de ações de organização social na luta contra o feminicídio.
Foram discutidas diferentes perspectivas a serem incorporadas ao roteiro, como a importância da educação de meninas e meninos para relações mais igualitárias e respeitosas; o conhecimento das redes de apoio e dos mecanismos institucionais de proteção, como o Ligue 180, seu funcionamento e as falhas de alcance dessas ferramentas nas comunidades; o fortalecimento das organizações comunitárias; e a participação dos homens no enfrentamento das violências contra as mulheres.
Após exercícios teatrais voltados ao aquecimento corporal e à estimulação da criatividade, Julie Wetzel propôs a criação de cenas a partir das discussões realizadas. O poema Fogo!... de Nego Bispo foi declamado pelo grupo em forma de pergunta e resposta em coro, para experimentar um método que tenha o conteúdo de denúncia e anúncio. Durante a manhã, o grupo construiu uma primeira cena centrada em possibilidades de enfrentamento às violências. No período da tarde, foi criada uma segunda cena dedicada à representação dos ciclos de violência. Ao longo do processo, em conjunto, o grupo e os integrantes do Terra em Cena contribuíram com sugestões dramatúrgicas e metodológicas, buscando potencializar a expressividade e a potência política das criações.
Na etapa dedicada aos saberes em gestão e produção cultural em perspectiva popular e comunitária, o grupo realizou a construção coletiva de seu plano de trabalho e definiu como objetivos: apresentar-se na 8ª Mostra Terra em Cena e na Tela; realizar apresentações no Seminário do PIBID; participar de formações vinculadas ao Escola Quilombo; apresentar-se nos festejos e atividades da comunidade.
Para isso, foram planejadas diversas ações: aprofundamento e finalização dos textos dramatúrgicos; criação de uma terceira cena abordando o machismo e o fenômeno dos movimentos redpill; levantamento de dados estatísticos com recorte racial para compor a narrativa; elaboração do prólogo da peça; construção de figurinos e objetos de cena; definição da divisão de tarefas e do cronograma de trabalho; articulação de parcerias, especialmente com a Associação Quilombo Kalunga; e manutenção de uma rotina regular de ensaios.
Assim como ocorreu com o grupo Jiquitaias, os participantes também mapearam suas habilidades e contribuições para o processo coletivo, identificando competências relacionadas ao canto, música, dança e sistematização dos processos e conhecimentos.
Considerações Finais
Os encontros nos territórios de Teresina de Goiás e Cavalcante (GO) evidenciaram a potência dos dois grupos na construção dos processos formativos que articulam arte, educação do campo, organização comunitária e gestão cultural popular. Além de preparar e planejar apresentações para a 8ª Mostra Terra em Cena e na Tela, os encontros possibilitaram fortalecer práticas de autogestão e reafirmar a cultura como dimensão fundamental da produção da vida comunitária.
A construção coletiva dos planos de trabalho permitiu que os grupos refletissem sobre seus objetivos, recursos, desafios e potencialidades, valorizando formas próprias de organização, cooperação e sustentação dos processos culturais. Ao mesmo tempo, o trabalho criativo desenvolvido pelos grupos e reafirmado nas oficinas demonstra que o teatro político é um método que pode contribuir para a elaboração crítica da realidade, produção de memória, fortalecimento da identidade quilombola e construção de alternativas frente às violências e desigualdades vividas.
O coletivo Terra em Cena encerra esta etapa assumindo o compromisso de seguir acompanhando os processos de criação dos grupos Jiquitaias e Encena Kalunga, contribuindo para que suas experiências não se limitem à participação na Mostra, mas fortaleçam iniciativas permanentes de criação artística, organização cultural e mobilização comunitária em seus territórios.
Estiveram presentes como facilitadoras das oficinas pelo coletivo Terra em Cena, Adriana Gomes, Julie Wetzel, Viviane Pinto e o professor Paulo Henrique da LEdoC/UnB, integrantes da operativa do grupo.
Por fim, ainda tivemos a oportunidade de participar da posse da nova diretoria da Associação Quilombo Kalunga (AQK), realizada no fim de tarde do dia 30 de maio de 2026, em que as lideranças de outras associações reivindicaram ações territoriais nas comunidades, e parceiros como o Terra em Cena, ISPN, FUP/UNB, IFG, entre outros, parabenizaram a nova diretoria, e afirmaram o compromisso de apoio a nova gestão da AQK e a continuidade das ações conjuntas no território.
O Coletivo Terra em Cena agradece profundamente aos grupos Jiquitaias e Encena Kalunga, e a todo o Território Quilombola Kalunga, pela parceria na construção da nossa 8ª Mostra Terra em Cena e na Tela!
Adriana Gomes, Julie Wetzel e Viviane Pinto
Integrantes do Coletivo Terra em Cena
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