No dia 19/03/2025 compartilhamos a satisfação de recomeçar os encontros sistemáticos da Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do DF (ETPVP) com o Cine Clube da ETPVP ocorrido no Armazém do Campo. Retomamos as atividades de calendário prolongado com os objetivos basilares da escola: formar, informar e organizar para luta com as classes populares por meio da produção e análise de bens simbólicos.
Nesta ocasião foi exibida e debatida a obra “La hora de los hornos – parte 1”, filme argentino de 1968 de direção de Fernando Solanas e Octavio Getino. O filme faz parte da tradição do Cine Militante e foi exibido clandestinamente em sindicatos e agremiações políticas e estudantis durante as ditaduras de Onganía, na Argentina, e nas ditaduras militares já estabelecidas no Brasil, Paraguai e Bolívia. Em outros países como Uruguai, Chile, Cuba, México era exibido publicamente como um manifesto de luta, até o golpe militar no Uruguai e Chile onde a exibição e debate do filme passou a ser clandestina.
O filme que didaticamente expõe a estrutura histórica da dependência econômica e cultural como resultado do processo colonial aponta o caminho da luta como o meio possível para transformação do sistema. Por isso tem como corrente estética a ideia de “cinema ato”, ou seja, o cinema que mobiliza para ação.
Ao longo do debate ocorrido neste primeiro encontro foram levantados pontos de convergência e dissonância entre o argumento do filme e a conjuntura atual. A forma como o filme é construída suscita o debate e apreende a atenção de maneira distinta ao que estamos habituados nas produções da indústria cultural. O que levou a tecer coletivamente reflexões como: qual o caminho da América Latina na correlação de formação internacional em meio à emergência da extrema direita mundial e da quebra do monopólio econômico pela China? Pensamos em como a urgência climática é ponto principal nas agendas de lutas populares atualmente, diferente do que se apresentava em meados do século XX. E, ainda, e ainda reflexões de como o filme se mantém atual ao identificar o preconceito racial e o genocídio de negros e indígenas como elemento central na manutenção dos vínculos de subordinação dos povos. Entendemos também que o filme aponta para uma equação: em um jogo de cena construído com esmero o filme apresenta um matadouro de bois, onde a matéria de exportação do modelo latifundiário abate com violência os recursos naturais da região, estas cenas são entrecruzadas com imagens da indústria cultural estadunidenses. Por fim, apresenta a imagem do trabalhador em condição precarizada de trabalho. Ou seja, entre o papel que a América Latina ocupa na divisão internacional do trabalho e que sustenta o capitalismo existe o trabalhador, e é neste sujeito que reside a possibilidade de transformação dessa realidade.
A atividade foi encerrada com a definição de continuidade dos encontros e fortalecimento dos vínculos entre a rede da escola e a possibilidade de agregar novos integrantes.
O Cine Debate da ETPVP não somente inaugurou as atividades da escola em 2025 como também foi a primeira atividade de mostra em audiovisual no Armazém do Campo do DF. Este que é um importante espaço para a classe trabalhadora pois simboliza a aliança entre o campo e a cidade não somente por meio da comercialização de produtos da reforma agrária, como também sendo um espaço de encontro, circulação e debate. Vocação que se manifesta na organização do espaço, na disponibilidade à realização de parcerias como a que se frutifica entre a ETPVP e o Armazém do Campo.
O Calendário do Cine Debate para o primeiro semestre de 2025 dará continuidade com as seguintes datas:
● 09/04
● 14/05
● 11/06
Sempre às quartas-feiras no Armazém do Campo (Setor Comercial Sul) às 19h.